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Uma história de vitória

 

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Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. MATEUS 5:44

Estávamos vivendo os últimos momentos do segundo milênio da era cristã. Uma grande expectativa tomava conta de todos. Alguns acreditavam que o fim do Mundo havia chegado. “Profetas” bradavam o retorno de Cristo. Quanto a mim, a mudança do século apontava para um outro retorno, que não era o de Cristo, mas o meu para trabalhar novamente no bairro do Pirambu.

Já não era mais nenhum principiante e somava mais de dez anos de serviço na Polícia Militar. Nesse período adquiri muita experiência e respeito dos meus companheiros de farda. Como era tido como um oficial antigo (com muito tempo na corporação) assumi o subcomando do quartel.

As coisas haviam mudado muito desde a minha primeira passagem naquele quartel, que estava aparelhado com uma infraestrutura bem melhor. Um moderno programa de computação nos dava uma visão estatística das ocorrências no bairro, facilitando o planejamento para distribuir o policiamento. A integração polícia e comunidade tornou-se uma realidade palpável. Foram criados centenas de Conselhos Comunitários de Defesa Social (CCDS), nos quais a comunidade se reunia uma vez por mês com as autoridades responsáveis pelo policiamento e relatavam suas angústias com relação à insegurança nos seus bairros. Mas, mesmo com toda a tecnologia disponível, o crime não regredia. Naquela época, um marginal se destacava dos outros  por seu grau de periculosidade. O nome dele era Alex.

 O Alex era um jovem de aproximadamente dezenove anos de idade, mas tinha uma vasta lista de crimes, desde roubos até homicídios. Por conta disso, conquistou  o “respeito” no meio da bandidagem. Por haver eliminado vários inimigos, estava assumindo o controle da venda de drogas no bairro. Sendo a maconha e o crack seus produtos de maior lucro, visto que eram as drogas mais usadas pelos jovens da região.

O aumento da preferência dos usuários pelo crack nos preocupava, pois sabíamos que esta droga leva rapidamente um simples usuário experimental à dependência. E, quando instalada a dependência, o jovem comete os mais variados crimes para tentar aliviar as desagradáveis sensações da abstinência causadas pela falta da substância.

Na tentativa de capturar o Alex, os policiais que trabalham no bairro do Pirambu já haviam feito várias perseguições sem sucesso, e por diversas vezes trocaram tiros com ele, mas nunca o prenderam. O Alex era muito ágil e sempre conseguia fugir, utilizando como rota de fuga os telhados das casas que se amontoavam na favela. Com isso, o Alex se tornou o “inimigo número um” da polícia naquele bairro.

A minha escala eu mesmo fazia, esta era uma das poucas regalias que gozava como subcomandante. Sabia que não era bom passar muito tempo longe das ruas, mas a burocracia administrativa de um quartel com aproximadamente trezentos policiais tomava muito meu tempo. No entanto, depois algumas folgas na escala de serviço, finalmente fui convocado para assumir um serviço de rua naquele bairro.

Cheguei cedo ao quartel e logo percebi um clima bem tenso. Os comandantes de viaturas que estavam saindo de serviço me procuraram muito apreensivos. Relataram que finalmente foram informados por populares que o Alex estava em uma situação propícia para a sua prisão. Na linguagem policial, “ele estava vacilando”. Mas para que tivéssemos êxito na sua prisão teríamos que ir ainda naquela manhã, de surpresa, o mais rápido possível, senão ele fugiria novamente.

Reuni o maior número possível de policiais para participar dessa delicada operação policial. Rapidamente traçamos um “croqui” da rua onde o Alex estava. Analisamos todas as possibilidades de fuga. O aparato policial, naquele momento, era de cinco viaturas e vinte policiais.

Chegamos rapidamente ao local. As viaturas ocuparam suas posições bloqueando as saídas das ruas próximo à casa onde ele estava. O restante dos policiais seguiu a pé e foi distribuído em pontos estratégicos. Também tivemos o cuidado de colocar outros três policiais no telhado da casa vizinha, pois era uma provável rota de fuga usada pelo Alex.

Como estava no comando dessa complexa operação e sabendo que, caso desse alguma coisa errada, a responsabilidade seria toda minha, optei em entrar primeiro na casa onde ele estaria escondido. Junto comigo entrou um tenente e mais três soldados.

A casa onde estava o Alex era pequena, apenas um pequeno espaço livre que servia tanto como sala ou quarto. A primeira visão que tive foi de um jovem dormindo em uma das duas redes armadas. Polícia! Disse acordando o jovem, que não tinha como reagir à abordagem. Na outra rede um outro jovem saltou rapidamente. Era o Alex, que correu em direção a uma planejada rota de fuga que levava ao telhado da casa. “Parado Alex, não adianta reagir!”, alertou o tenente que havia me acompanhado. Ele não parou e iniciou uma escalada para o telhado. “Bang”, ouvi o primeiro tiro. O tiro acertou a perna do Alex, que continuou escalando, vindo apenas a olhar para baixo. Neste instante, “Bang”, outro tiro. Este acertou a sua boca, mas ele incrivelmente não parou a sua fuga para o telhado. Em seguida, mais cinco disparos, tiros que saíram das armas dos dois policiais que havia colocado no telhado. Depois disso, ouvi um estrondoso barulho, como se alguém estivesse despencando. Corri, em direção à casa por trás da que o Alex estava. Chegando lá já estava um grupo de policiais, sedentos por vingança. “Ninguém atira!”,  gritei. Em seguida saiu um rapaz com o corpo ensanguentado e as mãos levantadas. “Perdi, perdi. Eu me rendo.”, disse o Alex.

Rapidamente observei que ele estava baleado com três tiros: um na perna, mais um no braço e o outro na boca, este último havia perfurado as duas bochechas, e milagrosamente não atingiu a sua cabeça. Imediatamente, dei a voz de prisão ao Alex e determinei, sob o protesto de alguns policiais, o seu socorro para o hospital mais próximo.

Duas horas depois, após passar por uma rápida cirurgia no hospital, estava em uma delegacia com o Alex para lavrar o flagrante. Incrivelmente, mesmo caminhando e falando com dificuldades, não corria nenhum risco de morte.

Numa sala isolada da delegacia iniciei uma conversa com o Alex. Falei o quanto ele havia tido sorte em não ter morrido. Ele me respondeu mostrando outras marcas de tiros pelo corpo. Daí começou a falar que tinha muitos inimigos que gostariam de vê-lo morto. Ao perceber que eu estava diante de um garoto, comecei a puxar conversa sobre sua vida pessoal. Perguntei se ele tinha algum plano para o futuro, pois era jovem e ainda poderia mudar de vida. Ele me respondeu com um sentimento de ira indisfarçável em seu olhar: “Matar todas as pessoas que mataram o meu pai, este é o meu objetivo de vida.”.

O pai dele era um pescador que dedicava todo o seu tempo ao mar, para daí retirar o sustento dos seus filhos. Mas, mesmo passando várias semanas longe de casa, enfrentando perigosas ondas, nunca esquecia da família, principalmente do pequeno Alex. Todas as vezes que ele via a jangada se aproximando da praia, sempre era o primeiro a chegar para receber um longo abraço do pai.

Certo dia, quando voltava para casa de mais uma jornada no mar, alguns marginais abordaram o seu pai para roubar o lucro da pescaria. Ao reagir ao assalto, teve início uma luta desigual. Eram três bandidos armados contra o pescador que, ao ser golpeado pela entrada da lâmina de uma faca no seu corpo, caiu sem vida. Um pouco à frente, assistindo toda a luta pela sobrevivência, um pequeno Alex que nunca esqueceu aquela cena. O garoto cresceu e colocou como objetivo de vida vingar a morte de seu pai. E foi assim, após matar todos aqueles que tiraram a vida de seu pai, que o Alex entrou no mundo do crime.

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Passados três anos após a prisão do Alex, encontrei o Nelson, pastor da Igreja Batista Central de Fortaleza (IBC), responsável pelo trabalho com jovens. De fala fácil, o Nelsão (assim o tratava) me contava empolgado sobre um retiro com uns “jovens da pesada” do Pirambu. Dizia, com os olhos marejados da emoção em ver aqueles jovens, entregando suas vidas aos cuidado do Pai. “Plauto”, dizia o Nelsão, “muitos deles nem sequer tinham um referencial de pai, mas receberam Jesus como seu Pai, Senhor e Salvador”. E continuou: “Tinha um deles que era muito temido naquele bairro, tinha várias passagem pela polícia, e o seu corpo trazia várias marcas de bala, inclusive havia escapado milagrosamente de um tiro na boca.”. “Espera aí, Nelson!”, o interrompi. “Por acaso este garoto se chama Alex?”.

De longe se me deixou ver o SENHOR, dizendo: Com amor eterno te amei, por isso com benignidade te atraí. (Jr. 31:3)

No jardim do Getsêmani soldados fortemente armados foram ao encontro de Jesus para prendê-lo. À frente daqueles soldados estava Judas Iscariodes, um dos doze que acompanhava Jesus.

Ora, o traidor lhes tinha dado este sinal: Aquele a quem eu beijar, é esse; prendei-o. E logo, aproximando-se de Jesus, lhe disse: Salve, Mestre! E o beijou.

Jesus, porém, lhe disse: Amigo, para que vieste? Nisto, aproximando-se eles, deitaram as mãos em Jesus e o prenderam. (Mt. 26:48-50).

Pedro deve ter fulminado aqueles soldados com o seu olhar, demonstrando todo o ódio e inquietação pela injustiça que estava testemunhando, principalmente ao reconhecer Judas à frente dos soldados. Traído por um dos seus. Isto é insuportável. Pedro se sentiu na obrigação de executar a vingança naquele instante, mesmo as circunstâncias não sendo favoráveis. Ele não resistiu e sacou a espada de um soldado. Extravasou toda a sua ira em apenas um golpe.

E eis que um dos que estavam com Jesus, estendendo a mão, sacou da espada e golpeando o servo do sumo sacerdote, cortou-lhe a orelha.

Então, Jesus lhe disse: Embainha a tua espada; pois todos os que lançam mão da espada à espada perecerão”. (Mt. 26: 51;52)

Foi o desejo de vingança que direcionou a vida marginal do jovem Alex. Foi esse desejo que fez com que ele “lançasse mão da espada”. Porém, como Jesus falou há quase dois milênios “quem lançar mão da espada à espada perecerá”. Com Alex não foi diferente.

Após ter entregado a sua vida aos cuidados do Senhor, Alex voltou ao Pirambu, para encarar uma nova vida. Aquela decisão livrou da sua maior prisão, seu ódio. Quanto aos seus crimes, cumpriu os primeiros anos da pena e o restante foi beneficiado pela legislação penal, respondendo em liberdade condicional e tentou levar uma vida diferente. Largou o tráfico de drogas e não se envolveu com novos delitos. Parecia uma outra pessoa. Na realidade era uma outra pessoa. Ele havia nascido de novo.

Em verdade, em verdade te digo que quem não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus (Jo 3:3).

Porém, por ter um dia “lançado mão da espada” ele sofreu as consequências daqueles atos motivados pelo sentimento de vingança. Os seus inimigos não queriam vê-lo vivo. Para eles, o Alex era o mesmo. Aparentemente, não havia tido nenhuma mudança.

Não atentes para a sua aparência, nem para a sua altura, porque o rejeitei, porque o SENHOR não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o SENHOR o coração (1 Samuel 16:7).

Em um dia qualquer, no Pirambu, os seus inimigos foram ao seu encontro. O jovem Alex foi morto com várias facadas. Para eles, havia caído mais um inimigo. No entanto, para Deus, um filho querido estava regressando aos braços do Pai. Acredito que agora Alex encontrou o seu caminho, e o seu verdadeiro Pai, Jesus Cristo.

Visto que aborreceram o conhecimento e não preferiram o temor do Senhor, visto que não quiseram o meu conselho e desprezaram toda a minha repreensão, comerão do fruto do seu caminho, e fartar-se-ão dos seus próprios conselhos.

Porque o desvio dos tolos os matará, e a prosperidade dos loucos os destruirá.

Mas o que me der ouvidos habitará seguro, e estará descansando do temor do mal (Pv. 1: 29- 33).

Mas o que Jesus quer nos ensinar com a morte do Alex? Que contradição, logo depois da entrega da sua vida aos cuidados do Senhor veio a morte. A Bíblia nos ensina sobre os propósitos que Deus tem para as nossas vidas através da história de Estevão.

E apedrejaram a Estevão, que em oração dizia: Senhor Jesus recebe o meu espírito.

E, pondo-se de joelhos, clamou com grande voz: Senhor, não lhes imputes este pecado. Tendo dito isto, adormeceu (At. 7:59; 60).

Estevão passou por algo semelhante. Ele era um homem que tinha a sua vida nas mãos do Senhor. Intrepidamente, anunciava o evangelho do Senhor, sendo nesse momento estupidamente apedrejado e morto. Mas, um fariseu chamado Saulo, que consentiu com sua morte, ficou com aquele discurso gravado no seu coração, sendo posteriormente o maior pregador do novo testamento. Deus transformou a morte em vida.

Disse-lhe, porém, o Senhor: Vai! Este é para mim um vaso escolhido, para levar o meu nome perante os gentios, os reis e os filhos de Israel (At. 9:15).

Vivemos dias difíceis, a violência tem ceifado pessoas próximas. O medo da dor pela possível perca de um ente querido parece atingir a todos. Isso sufoca e nos faz respirar ares de vingança, ódio e desejo de justiça com as próprias mãos. Não deixe a ira e o sentimento de vingança tomar o seu coração. Que, nesta história, o Alex possa representar Estevão, e você Paulo, um vaso escolhido. Jesus é especialista em transformar derrota em vitória. Ele tem um plano na sua vida.

Cotidiano da Fé

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Lucas Souza Publicidade

Jornalista e Blogueiro.
Diretor do site que mais cresce na Bahia.

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